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Por que falta água e sobra petróleo? A resposta é uma única palavra...

Publicado em 02/02/2015 17:27
por Leandro Narloch, da coluna "Caçador de Mitos", em veja.com

Por que falta água e sobra petróleo? A resposta é uma única palavra

A água é um recurso renovável, fácil de captar e muito mais abundante que petróleo, mas então por que as represas estão vazias e os tanques de petróleo transbordam?

Não só o Brasil ou países pobres sofrem com a seca. Faltou água nos Estados Unidos no verão de 1999, quando uma seca atingiu a costa leste. Na Austrália, em 2007, a falta de chuvas levou à ruína produtores de frutas à base de irrigação.

Já as reservas de petróleo só crescem – e o preço do barril está em queda porque a produção está alta demais em relação à demanda mundial. De vez em quando o petróleo encarece, mas faltar, não falta.

A resposta para esse mistério é uma simples palavra: preço.

A beleza do mercado de petróleo, onde há concorrência e preços livres, é que a escassez leva à abundância. Se a oferta de petróleo diminui, o preço sobe. Com preço alto, há incentivo para a economia de gasolina entre os consumidores e para pesquisa de fontes alternativas, novas reservas e processos de extração. Foi o que aconteceu de 1973 para cá. A crise do petróleo empurrou o mundo para motores mais econômicos, etanol, carros elétricos, pré-sal e petróleo de xisto. O resultado é abundância e preços baixos em 2015.

O petróleo confirma o que economistas já sabem há algum tempo: o mecanismo de informação e incentivos dos preços é o melhor sistema de alocação de recursos. Não é exagero falar em beleza, como fiz ali acima, pois esse fenômeno é dos mais bonitos da economia.

O mecanismo de preços funciona todo dia no setor de alimentação, o mais essencial de todos. Se falta tomate, o preço sobe. É como se emitissem um alerta a todos envolvidos, desencadeando uma série de mudanças de atitude. No supermercado, a dona de casa se assusta com o preço e coloca menos tomates na sacola. O dono do restaurante reduz o desperdício de tomates e sobe o valor do espaguete ao sugo, empurrando clientes para a pizza quatro-queijos. O importador aumenta o pedido de tomates enlatados da Itália. O agricultor brasileiro percebe que lucraria mais se destinasse parte da fazenda à plantação de tomates. De repente há tomate demais para uma demanda menor. Pronto: a varinha de condão dos preços livres transformou a escassez em abundância.

O chato é que o mercado de água não é assim. A concorrência entre sistemas de água encanada é difícil, pois é caro demais haver empresas com encanamentos paralelos competindo entre si. Por isso empresas de água geralmente são monopólios públicos ou privados. Para evitar abusos da empresa dona do monopólio, o preço é regulado ou tabelado pelo governo.

Com o tabelamento, os superpoderes do preço desaparecem. Ele perde a capacidade de distribuir informação e incentivo. As pessoas utilizam demais o recurso mesmo quando ele é escasso. Fornecedores não têm incentivo para pesquisar novas fontes, pois a água é barata demais. No caso dos tomates, é como se a dona de casa continuasse comprando como antes, sem que ninguém se interessasse em aumentar a produção. Uma hora todos percebem que há uma crise de tomates no país.

Nos anos 80, o congelamento de preços deixava prateleiras vazias no mercado. Em 2015, a regulação do preço da água resulta em torneiras secas. Nos anos 80, o mercado negro vendia, com ágio, a carne e o leite que ninguém encontrava no mercado. Em 2015, serão os caminhões-pipa, vendendo a preço livre, que vão nos livrar do desabastecimento causado pela seca – e pela regulação do preço da água.

(Muitos leitores devem perguntar: seria possível haver preços livres no sistema de distribuição de água? Não haveria abusos da empresa que detém o monopólio? Prometo as respostas para um próximo post.)

@lnarloch

(por Leandro Narloch)

 

A falta que nos faz a Alca

Lembra da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas?

Passei toda minha faculdade de jornalismo, no comecinho dos anos 2000, ouvindo discursos histéricos contra a Alca. Meus professores diziam que iríamos empobrecer ainda mais, que não haveria mais empregos no Brasil, que participar da Alca resultaria na submissão final do Brasil aos americanos. “A Alca não é uma proposta de integração, é uma política de anexação”, disse Lula em 2002.

Pois bem, não entramos na Alca. Mas o México entrou – assinou e manteve um acordo de livre comércio com os EUA e o Canadá, o Nafta. E agora que a economia dos Estados Unidos se recupera os mexicanos se dão muito bem. O aumento do consumo dos americanos aquece fábricas, motiva investimentos e cria de empregos no México. Em 2015, o PIB mexicano deve crescer 3,7%.

Um empurrão dos Estados Unidos era tudo o que o Brasil precisava neste momento, quando a criação de vagas é a menor desde 2002, a economia da Europa custa a engrenar e a da China perde velocidade.

Quem for demitido ou não encontrar emprego nas próximas semanas não deve reclamar dos patrões, como fizeram operários do ABC há algumas semanas. Devem pedir explicações ao Lula – e a gente como os meus professores, que tanto reproduziram o mito da Alca como instrumento de dominação do império.

(por Leandro Narloch)

 

Um rombo de meio trilhão de reais

Os “déficits gêmeos” ocorrem quando um país tem tanto a conta corrente negativa como o resultado fiscal do governo no vermelho. Ou seja, as importações superam as exportações e o governo gasta mais do que arrecada.

Já expliquei melhor aqui por que essa situação é perigosa: o país se torna mais vulnerável pela enorme dependência de poupança externa para fechar as contas, e o câmbio corre risco de uma grande desvalorização repentina, o que teria efeito inflacionário.

Pois bem: no governo Dilma, os “déficits gêmeos” chegaram ao recorde histórico e somam R$ 500 bilhões, ou meio trilhão de reais, o equivalente a mais de 10% do nosso PIB. O mais assustador, além da magnitude, é a trajetória: em 2013, o rombo era de 6,9% do PIB, ou seja, houve um aumento de 60% em apenas um ano!

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A necessidade de financiamento do setor público, portanto, aumentou exponencialmente. Enquanto a iniciativa privada aumentou sua poupança, o governo foi o grande “despoupador”. Isso gera enorme fragilidade para o país e coloca em risco nossa classificação pelas agências de risco, com uma eventual fuga de capitais.

O que tem permitido a manutenção dessa situação insustentável ainda é a fraqueza das principais economias desenvolvidas. Seus bancos centrais, com isso, ou postergam a retirada de estímulos monetários (como no caso do Federal Reserve americano), ou adotam novas rodadas de estímulo (como no caso do BCE na Europa).

O efeito é uma abundância de liquidez no mundo, sem retorno atraente em seus quintais, o que fomenta um fluxo de capital maior para países emergentes como o Brasil. É esse “tsunami monetário” que possibilita a relativa calmaria mesmo com um rombo tão grande. Mas se o mercado externo espirrar, corremos o risco de pegar uma pneumonia.

O grande vilão é, sem dúvida, o gasto público. Ele cresceu de forma preocupante durante o governo Dilma. Parte é atrelada aos gastos constitucionais que o governo não controla diretamente. Mas outra parte, expressiva, deve-se aos gastos discricionários que o governo fez. Há um claro “descontrole fiscal” por trás desse quadro assustador.

Para reverter isso o esforço terá de ser homérico. Como o governo Dilma apresentou um déficit primário (sem incluir os juros) em 2014, e promete agora um superávit de 1,2% do PIB, a reviravolta necessária é de R$ 100 bilhões. Ou seja, o governo precisará aumentar receitas e reduzir despesas nessa ordem de grandeza para cumprir a meta. Ninguém sabe de onde essa montanha de recursos sairá, até porque não há clima político algum para a volta da CPMF.

Do lado da balança comercial dificilmente virá alguma salvação também. Afinal, o Brasil depende muito da exportação de produtos básicos, e o preço das commodities está em queda por conta do menor crescimento chinês. Um estudo do Itaú Unibanco estima que teremos US$ 14 bilhões a menos de exportações este ano.

Há certo consenso entre os economistas de que a nossa taxa de câmbio está sobrorizada, após muitas intervenções do Banco Central. O dólar vale hoje aproximadamente R$ 2,70, e muitos acreditam que o valor de “equilíbrio” estaria mais próximo de R$ 3,20 ou algo do tipo. Mas nem isso seria capaz de reverter as contas externas, pois os problemas são estruturais, o famoso “Custo Brasil”, que tira a competitividade de nossas empresas.

Só há uma saída verdadeira para a sinuca de bico em que o Brasil se encontra: resgatar uma agenda de reformas estruturais e reduzir drasticamente os gastos públicos. Somente assim nossas empresas se tornariam mais competitivas e sobraria poupança doméstica para financiar investimentos produtivos.

Infelizmente, nosso governo está sob o comando de uma economista (de)formada pelas correntes heterodoxas de esquerda, representadas pela turma da Unicamp. Essa gente acredita que pode manipular preços e atacar os sintomas que tudo estará resolvido.

Por exemplo: mexendo no câmbio e produzindo desvalorizações artificiais, eles acham que resolveram o problema da baixa competitividade de nossas empresas; e decretando taxas de juros menores, eles pensam que solucionaram o problema fiscal, já que o pagamento de juros passa de R$ 300 bilhões por ano (mais de 6% do PIB).

Mas não se resolve o problema da febre quebrando o termômetro. O governo Dilma adotou por completo o pacote heterodoxo, com promessas fantásticas e os aplausos desses economistas todos, e deu no que deu. Foi justamente por esses equívocos que chegamos aqui, nessa delicada situação.

editorial do Valor de hoje abriu as contas públicas e expôs o quadro desolador que Joaquim Levy tem pela frente. Trata-se de uma situação dramática, sem dúvida. A responsabilidade fiscal foi totalmente abandonada, os preços e a taxa de juros foram manipulados, e as intervenções na economia desorganizaram setores inteiros que são básicos para os demais, como o de energia.

Achar que é possível reverter essa situação com aumento de impostos é um delírio de quem nada aprendeu com os erros. Ou o governo realmente aperta os cintos e corta na carne, além de aprovar reformas estruturais que tornem o ambiente para os negócios menos hostil, ou sofreremos as graves consequências da irresponsabilidade fiscal. Complicado é acreditar que a própria presidente Dilma estará disposta a ser exatamente o oposto do que foi no primeiro mandato…

Rodrigo Constantino

 

A geração superficial e o jornalismo verdadeiro

Em sua coluna de hoje, Carlos Alberto Di Franco chama a atenção para um ponto importante: o jornalismo vem demonstrando sinais de perda de alma e rigor, o velho “cheiro de asfalto”. Isso seria consequência, segundo o autor, da era digital apressada em que vivemos.

Ele começa comparando a enorme quantidade de fotos que tiramos hoje com os álbuns do passado, que mexiam mais com a memória afetiva. Hoje temos uma overdose de fotos, de selfies (narcisismo), arquivadas compulsivamente em pastas que ficam esquecidas no dispositivo.

Segundo Di Franco, o mesmo ocorre com o consumo de informação. Navegamos freneticamente pela internet, somos submetidos a um frenesi de notícias, fotos, textos e “memes”. Mas há um custo nesse excesso de informação e de estímulo: perdemos foco, concentração e dispersamos nossa inteligência. “Ficamos reféns da superficialidade”, conclui o jornalista.

A crítica não é nova. Em A geração superficial, Nicholas Carr já tinha se questionado sobre o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Para ele, há uma mudança profunda, que altera nossos hábitos e também nossa forma de pensar e ver o mundo.

É um mundo muito mais veloz, com uma incrível profusão de informações, que podem criar nos usuários uma dependência de cada vez mais “alimento”, de estar conectado o tempo todo. Alguns especialistas acham que isso tudo é positivo, que as novas gerações estarão adaptadas, dotadas de uma capacidade mental diferente e abrangente. Outros acham que quantidade não é qualidade, e que a perda de foco e de concentração pode acarretar danos em nossa inteligência.

Não vou tomar partido aqui. Sempre que vejo com certo receio ou mesmo horror as novas tendências, procuro me lembrar do alerta de David Hume: “O hábito de culpar o presente e admirar o passado está profundamente arraigado na natureza humana”. Ou então o de George Orwell: “Toda geração se imagina mais inteligente do que a anterior e mais sábia do que a seguinte”.

Mas mesmo sem concluir se o efeito líquido das mudanças é positivo ou negativo, creio que é perfeitamente legítimo levantar dúvidas e aceitar que mesmo os ganhos podem embutir uma perda na equação. Ou seja, perdemos alguma coisa mesmo ganhando outras melhores – se for o caso.

Sendo eu mesmo um economista que possui um canal de opinião atualizado várias vezes ao dia, posso atestar que existe um claro “trade-off” entre quantidade e qualidade. Fazendo uma comparação com minha área de atuação anterior, existem os gestores de “valor”, cujo ícone máximo é Warren Buffett, e os traders “quantitativos” de alta-frequência.

Análises profundas exigem mais tempo e dedicação, características cada vez mais escassas no mundo moderno. Mas o que seria do mercado financeiro sem os “value investors”, com suas análises bem mais detalhistas? Sem dúvida algo se perderia, até em termos de eficiência dos mercados. Para o jornalismo, essa mudança impõe uma perda significativa também, como alerta Di Franco:

A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa sensação de liberdade. Não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os editores do nosso diário personalizado. Será? Não creio, sinceramente. Penso que há uma crescente nostalgia de conteúdos editados com alma, rigor, critério e qualidade técnica e ética. Há uma demanda reprimida de reportagem. É preciso reinventar o jornalismo e recuperar, num contexto muito mais transparente e interativo, as competências e a magia do jornalismo de sempre.

Jornalismo sem alma e sem rigor. É o diagnóstico de uma doença que contamina inúmeras redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto. As empresas precisam repensar os seus modelos e investir poderosamente no coração. É preciso dar novo brilho à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, isento. As melhores pautas estão nas encruzilhadas da vida. O prestígio de uma publicação não é fruto do acaso. É uma conquista diária. A credibilidade não se edifica com descargas de adrenalina. É preciso contar boas histórias. Com transparência e sem filtros ideológicos. O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história.

O problema é que jornalismo sério, feito dessa forma mais profunda e sem seguir o ritmo alucinado das redes sociais, custa caro, demanda tempo. E os veículos de informação ainda não descobriram uma fórmula razoável para remunerar esse investimento, até porque concorrem com o frenesi das redes sociais e blogs, atendendo a um desejo quase insaciável de mais informação.

Não sei o que vai acontecer no futuro. Só sei que o mundo perderá muito se as novas gerações não tiverem paciência ou “saco” de se afastar um pouco do ambiente caótico da internet para degustar um estudo mais aprofundado, uma reportagem mais detalhista.

É divertido curtir vários “memes” de uma vez ou ler frases e comentários curtos sobre tudo. Mas é muito triste abrir mão de reflexões mais profundas e da busca por informações mais robustas de quem realmente fez o dever de casa da forma mais imparcial possível. Eis a função do bom jornalismo.

Rodrigo Constantino

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